Quando alguém morre dizemos: tão novo, tão velho, aconteceu tão rápido, aconteceu devagarinho, não era hora, já era hora, ele estava tão feliz, estava tão triste, estava nem aí. Percebam como nossa medida da morte é sempre com base na vida. Mas isso é um tanto óbvio, afinal da morte sabemos tão pouco ou nada, além disso, não há como falar da morte sem seu contraposto. “Para morrer basta estar vivo” dizia Machado de Assis. Mas o que destaco é que mais do que falar da morte diante da vida, falamos da morte a partir de uma intensidade de vida, seja na dor, na alegria, na fatalidade prevista ou não. É sempre um olhar da vida a partir de um ápice, de um clímax – mesmo na ruptura, quando um jovem morre abruptamente, ainda assim se trabalha imaginariamente com a vida que se seguiria se ele não tivesse morrido. Ou seja, mesmo na morte inclemente ainda intensificamos vida. A morte então é a medida de intensidade da vida.
A isso se seguem dois caminhos. O primeiro um tanto neurótico pensa a morte a partir da perda da vida, e por isso então a vida deve ser conservada como um brinquedo raro no seu pacote original fora de todos os perigos – tal qual hoje é a chatíssima área da saúde que trata o corpo como uma posse a ser resguardada. A segunda alternativa, mais arejada na minha opinião, pensa na morte não como perda, mas como ganho de vida, ganho na experiência de vida. Essa vertente se permite inclusive cogitar: vai que morrer dá barato? É com essa concepção que me parece mais sintonizado Daytripper de Fábio Moon e Gabriel Bá.
A HQ dos gêmeos brasileiros publicada nos EUA por uma grande editora americana e abocanhando os prêmios e indicações mais importantes do mercado norte-americano já chama atenção em termos mercadológicos. Porém, mais impressionante que uma estória bacana feita por brasileiros receber tamanha atenção, é ela ainda tratar do Brasil de uma maneira tão sensível e madura, sem estereotipagens e “forçações” de “brasilidade”. Pra mim essa talvez seja sua maior façanha.
A estória se desenrola em dez partes. Na primeira conhecemos Brás de Oliva Domingos, um jornalista de obituários em São Paulo que possui uma relação mal resolvida com seu pai, Benedito, um ilustre escritor. Brás está chateado, hoje é seu aniversário e seu pai não ligou. Pior ainda, no que deveria ser seu dia de comemoração de vida, ele tem que ir ao Teatro Municipal assistir uma homenagem ao seu pai. Mas Brás não chega lá, é assassinado durante um assalto. Brás que queria ser escritor, morre como Shakespeare no dia do seu aniversário, nos diz seu obituário. Fim? Não, isso é apenas o começo.
Nos próximos sete capítulos veremos Brás em diferentes fases de sua vida, desde criança até velho, morrendo em idades e de formas distintas. Sendo os últimos dois capítulos uma possível, mas não conclusiva explicação do porque as muitas mortes de Brás: ele está velho e um tumor no cérebro lhe causa, talvez, tais alucinações. Mas quero ressaltar o talvez. Pois essas memórias póstumas de Brás só serão cronologizadas se quisermos. Em algum lugar que nossa percepção ainda não pode compreender totalmente, talvez vivamos e morramos das diversas formas ao mesmo tempo todo o tempo – um tempo fora do tempo?
Divagações filosóficas e referências literárias a parte (Brás, Benedito, o cão Dante) em Daytripper o que constatamos é a morte como o maior intensificador literário (artístico, cultural) da vida. Uma vida boa, como diz Brás. Boa não porque se subtrai da morte, mas se soma. Isso fica evidente no episódio que Brás precisa escrever os obituários das vítimas do acidente de avião da Tam no aeroporto de Congonhas. Sensivelmente, suavemente percebemos como a morte deu sentido àquelas pessoas – e ainda dá.
Ninguém quer morrer, certo? Mas será que vale a pena desquerer morrer? Não falo isso num sentido religioso, pois para alguns a morte é desejada como mudança para um mundo melhor ou coisa que o valha. Não. Falo em aceitar a morte da maneira mais descrente, mais materialista possível. Brás parece fazer essa escolha diante do oceano com suas oferendas. A vida continua sem ele, mas também por ele, por quem ele foi e pelo sentido claro ou obscuro que a morte pra nós parece ainda ter. Tal qual um epitáfio onde uma textualidade fala da intensidade da vida pela morte, o viajante diário vive e morre por suas palavras tocantes, desenhos expressivos, belas cores e fragmentos de uma vida brasileira. Um singelo epitáfio é Daytripper.
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Daytripper saiu pela editora Panini em 2011 em versão capa-dura e mais recentemente em versão capa cartonada, bem mais barata. Mas a estória faz por merecer um acabamento mais requintado. Devo admitir um vergonhoso clichê: escrevi esse texto ao som do Requiem de Mozart. Não houve como resistir. Que me condenem à morte.
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