O inferno está ao lado e o fogo é que nos conduz. Não, não falo do calor infernal que aplacou este suado blogueiro e que fez esta casa ficar menos movimentada. Falo da coletânea Hellblazer Origens onde conhecemos as primeiras aventuras publicadas do mago inglês John Constantine. Você conhece esse cara, né? Um loiro trintão, sarcástico, foi integrante de uma banda punk chamada “Membrana Mucosa”, não sabe dirigir, anda sempre acompanhado de uma capa-de-chuva noir, é elegante quando quer, também fumante e beberrão, por vezes canalha, e que quando não tem ideia de como resolver um problema, faz cara de que tem. Constantine é um mago sim, um dos maiores, mas é ainda um inglês qualquer que esbarraríamos nas ruas de Londres dos anos 1980.
John Constantine foi criado por Alan Moore originalmente em Monstro do Pântano, mas logo ganhou sua série própria, Hellblazer, em 1988, escrita por Jamie Delano e desenhada por John Ridgway. É este começo da série mensal publicada até hoje (já quase na edição 300) que me seduz. Hellblazer é horror oitentista da melhor qualidade. Mais do que isso, os roteiros de Delano capturam aquilo de mais horroroso no horror: sua inescapável proximidade.
Uma noção de horror que julgo interessante é aquela que entende como horroroso aquilo que é abrupto demais, cru demais. De certa forma podemos ver nisso um tipo de intimidade forçada, algo que de forma impactante se põe na nossa frente e nos ocupa toda a visão a despeito de nossa vontade. Não há como desviar o olhar, o horror é aquilo que está por toda parte, aquilo que nos rodeia e que chega até nós de forma afiada aos olhos e amarga ao estômago. Há portanto no horror, além da proximidade, um transporte, um passagem, uma viagem que ele empreita até nós, através de nós.
É esse tipo de horror que encontramos em Hellblazer. As aventuras de Constantine, os desafios que ele se depara (muitas vezes por acidente, pois John não é lá muito nobre), são metáforas de um horror que convivemos o tempo todo e fingimos não ver. Trata-se do demônio que faz as pessoas devorarem aquilo que mais gostam (pessoas, dinheiro, gibis), das guerras sujas entre o céu e o inferno e seus discípulos ainda mais agressivos e traiçoeiros, dos fantasmas de veteranos do Vietnã que voltam pra casa numa cidadezinha americana propiciando chacinas e caos, das doenças transmissíveis pelo sangue como uma praga demoníaca, do espírito que se perde no mundo da computação, dos demônios que atuam na bolsa de valores e dirigem o capitalismo mundial, da essência da vida que se reduz a sexo e morte.
Não é isso mesmo? Não estamos rodeados, mais do que isso, atravessados de (na mesma ordem) o desejo que nos destrói, do fanatismo religioso e seus golpes baixos, dos veterenos de guerra que voltam como máquinas assassinas e ainda assim esperamos deles alguma humanidade, da Aids, do convívio reduzido ao computador, do capitalismo selvagem e da vida sempre intensa mas ainda sem sentido? Por isso Hellblazer é um excelente gibi de horror. Não se trata de apenas demônios deformados e cabeças decepadas (o que tem bastante também), se trata de mostrar o horror que já está na nossa cara – e faz tempo. Afinal, esse olhar é dos anos 1980.
Jamie Delano é bastante politizado e na introdução que acompanha o segundo volume brasileiro ele aponta o prazer pelo horror como nossos subconscientes se culpando por todas as atrocidades que fazemos e deixamos fazer com o mundo. Faz sentido. Por isso sua política de, digamos assim, metaforizar o horror. A palavra metáfora etimologicamente quer dizer transporte. Portanto Delano transporta até nós, pelos olhos de Constantine, o horror de um mundo. Ocupá-lo com diabos chifrudos e fantasmas transparentes é só uma maneira de conseguir trazer para perto de nós o horrível de uma maneira que ainda possamos suportá-lo em medo. Sem eles, o fogo do inferno seria real demais.
Os desenhos cheios de hachuras de Ridgway e os simbolismos do capista Dave McKean também favorecem essa contaminação do horror mágico ao mundo real. A magia parece então se mostrar a melhor imagem que poderíamos atribuir ao horrível. Seria o mundo mágico a face mais suportável e confrontável de uma vida horrorosa – mas ainda assim cheia de “risquinhos” que ao mesmo tempo poluem e propiciam nossa visão? Em termos de linguagem, inclusive, Hellblazer trabalha com páginas muito bem elaboradas onde a disposição dos quadros contam a estória tanto quanto o que preenche os mesmos. Em outras palavras, todo traço conta. Com isso o horror que reservamos às páginas de um gibi se transporta até nós invariavelmente – e somente com os olhos de um mago capaz de toda sorte de feitiços podemos dar face ao horror que nos atinge como uma lança em chamas deliciando em dor nosso intestino todo enozado. O inferno está ao lado e o fogo é que nos conduz.
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Hellblazer Origens está saindo no Brasil pela editora Panini, já com dois volumes: “Pecados Originais” e “Triângulos Infernais”. Tem sido uma das leituras mais prazerosas nos últimos tempos. Espero que continue saindo, senão vale a pena partir para os importados. Tanto aqui como lá estão por preços bastante acessíveis. Há muito por comentar sobre o universo de John Constantine. Essa reflexão sobre o horror é uma mera introdução, quero crer que o mago encapotado sorrirá cinicamente mais vezes aqui.

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