É um consenso que para os quadrinhos de super-heróis os anos 1990 foram a era dos grandes espetáculos. Estratégias apelativas cheias de estardalhaços em desenhos espetaculares de encher os olhos e esvaziar a cabeça de qualquer outra atenção à linguagem, narrativa e outras coisas de pouco valor naquele momento, abarrotavam as bancas, repercutiam na grande mídia e vendiam muito. Foi na época que Homem-Aranha encontrou seu clone num polêmico jogo de reviravoltas, que Batman ficou paraplégico nas mãos de Bane, passando adiante o seu manto, e que Superman morreu nas mãos de Apocalypse, retornando na urgência de salvar a humanidade.
A Morte do Superman em 1992 talvez tenha sido, de todas elas, a que mais atraiu a atenção da grande mídia, produzindo uma recursão poucas vezes vista sobre um gibi em toda história. Na trama o estranho monstro Apocalypse (Doomsday no original) chega à Terra causando destruição e morte por onde passa. Superman então tenta contê-lo numa batalha de punhos, onde consegue parar a besta ao custo de sua própria vida. Logo após seu funeral, quatro pretendentes a Superman surgem na cidade de Metrópolis, sendo eles variações do próprio personagem (a melhor parte da estória na minha opinião). No final o verdadeiro Superman retorna e contém a destruição da vida na Terra ameaçada por um dos falsos Supermen. Fim?
Mas convenhamos, dirá qualquer um mais experimentado da arte dos quadrinhos: “esse gibi é uma completa titica”! Não discordo totalmente (e nem concordo), mas acho mais interessante se ater nessa, assim digamos, “estética do espetáculo” e entender porque mesmo numa estória supostamente fraca, houve tanto sucesso. Isso tudo dá uma extensa dissertação. Há aspectos políticos, midiáticos e (o que me instiga mais) os bens simbólicos atuando nesse acontecimento. Aterei-me rapidamente aqui em um símbolo apenas: o do próprio Superman.
Não é de hoje as alusões judaico-cristãs que envolvem o personagem: a bíblica Krypton; os El, que do hebreu significa Deus; o pai que envia seu único filho para guiar os homens, caído de uma nave-estrela e criado por uma família rural humilde; um deserto de gelo, onde o messiânico herói na maturidade compreende sua missão após uma série de provações e isolamento; o poderoso ser que ouve nosso apelos (tal qual uma prece) e vem dos céus nos salvar. Superman talvez tenha sido um dos melhores messias para ansiedades simbólicas do século XX (curiosamente, o filme de 1978 no Brasil estreou no dia 25 de dezembro).
Morrer nos anos 1990 para depois ressuscitar, apesar de argumentado por uma série de explicações científicas que mais parecem milagres em ação, ainda assim complementa todo o mito cristão que permeia o Superman. Mas algo fundamental mudou. Esse Superman que retorna, apesar de semelhante à ressurreição de Cristo (com direito a Lois Lane encontrar sua tumba vazia apenas com o sudário que envolvia seu corpo), apesar dos cabelos compridos (mas ainda sem barba), é um cara que estando ligeiramente um pouco fraco por tudo que passou, não abre mão de pegar em armamento pesado e meter chumbo nos caras maus – e ele veste preto. Ou seja, passamos de Jesus a Rambo (do 2, a missão) em poucas viradas de páginas.
Penso se isso não correspondia ao desejo inconsciente de um grande público que estava cansado desse papo de que, contra a violência, exponha sua outra face super-poderosa. “Que mané outra face, você já era, mermão! É faca na caveira!’. Ou seja, me pergunto se o retorno desse Superman proativo (palavra horrorosa, mas aqui combina) não foi uma catarse mascarada do desejo daquele cara que quando jovem foi obrigado a estudar religião na escola e que cresceu com os valores de um Cristo que sofreu e supostamente nunca revidou com violência. Por isso, afim de evitar um sacrilégio com Cristo e consequente sentimento de culpa, a cultura produz (inconscientemente ou não) um símbolo de Cristo onde dessa vez ele chuta bundas e nem pede arrego pro Pai. “Ajudai-me o caralho, meu nome é Superman porra!” Em suma, um Supercristo que não se abstrai da violência do século XX.
Tudo bem, esse Superman armado para matar ainda não mata indiscriminadamente e poucas edições depois voltou para a sua programação normal. Mas é de se pensar, não? Uma das minhas obsessões como leitor e pesquisador é ver esses estilhaçados de messianismo em Superman e como ele se relaciona em diferentes áreas, dentre elas, a cultura e a religião. Ainda há muito mais por alçar voo e o símbolo continua lá, à espreita, esperando por nos salvar e esperando por nós ser salvo. Cabe a nós essa tarefa final na super-leitura.
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A Morte e Retorno de Superman saiu originalmente no Brasil pela editora Abril nos anos 1990, sendo republicada em duas edições em capa-dura e formato americano pela editora Panini em 2009 e 2010. Vale a pena conferir, além de ser uma aventura deliciosamente apelativa, acaba por dizer, mesmo que sem querer, muito do mundo em que vivemos. Quem diria que precisaríamos de caras com cuecas por cima das calças pra explicar nossa realidade?
Quem tiver interesse em leituras mais extensas, há um artigo que fiz sobre Superman e Messianismo Político disponível para download aqui. Também tive o prazer de orientar a monografia de conclusão de curso em Jornalismo de Greg Nazário, “A verdade além do Superman” onde se relaciona Superman, verdade e jornalismo.
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