01/06/2012

Black Kiss, um beijo no falo

0 comentários
Existe uma receita fácil para criar polêmica, ou ao menos, um contraste problemático. É simples, basta apresentar o corpo ao cristianismo. Não o corpo santificado, puro ou amaldiçoado por chagas, impuro. Mas sim o corpo sexualizado, gozado mesmo, o corpo que tem uma leve ereção ou lubrificação ao ver uma imagem de Cristo ensanguentada. São comuns filmes que problematizam o celibato católico, com padres pedófilos e freiras homossexuais. Nada mais sexy do que duas freiras transando, alguém diria sob o olhar horrorizado de muitos outros... Viram então como é fácil polemizar? 

Howard Chaykin devia saber disso quando lançou a hq Black Kiss em 1988/1989. É visivelmente gratuita as provocações religiosas e sexuais. Ainda assim, na própria gratuidade se escondem símbolos bastante ricos. Destaco aqui o pênis, do judeu circuncidado e do travesti que oculta, juntamente com a pulsão pelo sexo oral, pelo boquete, pela “gulosa” e pelos “litros de porra” que as protagonistas anseiam verbalmente e adoram receber. Black Kiss basicamente é: vamos falar de pênis, do que podemos fazer com ele e de como ele se encaixa, penetra, no cristianismo católico.

A trama é consistente nas suas muitas viradas típicas de um filme policial, noir, naturalmente passado em Los Angeles a base de muito Jazz – muito parecido com aqueles filmes B mais ou menos pornográficos, que entre uma cena de ação e outra surge alguém transando como forma de apresentação (algo também típico em filmes de ação, onde os heróis se conhecem na base da porrada). 

Basicamente o que move a trama são as duas mulheres e amantes, Dagmar Laine e Beverly Grove. Ambas estão tentando destruir um filme do acervo pornográfico do Vaticano. Dagmar é idêntica a Beverly, uma ex-atriz de sucesso dos anos 1950, embora nos dias de hoje (final dos anos 1980) ainda esteja extremamente jovem. Nosso personagem de penetração (na trama e outras coisas) é Cass Pollack, judeu, músico, ex-viciado em heroína, que tem sua esposa e filha assassinadas pela máfia e é incriminado pela polícia corrupta. 

Cass acaba se envolvendo (para seu azar) com Dagmar e Beverly. Muitas fugas, transas e revelações surgem até sabermos que o tal filme que deveria ser destruído prova que Beverly, jovem desde os anos 1920, participou de uma orgia satânica com a alta elite hollywoodiana. Esses seguidores satanistas da elite ainda existem e querem que Beverly conceda a eles a vida eterna na morte eterna. Nunca é mencionada a palavra vampiro, mas rituais de sangue, alho e estacas dão a tônica com facilidade.

No entanto, grande parte do que move as surpresas e as cenas mais agressivas sexualmente da estória é o fato de Dagmar ser uma mulher escultural, linda e perfeita, idêntica a Beverly, mas com uma diferença crucial: Dagmar tem um enorme e viril pênis. Antes um homem, Dagmar hoje é uma mulher com bônus. Esse estranhamento (repito, lembrem que estamos no final dos anos 1980) chega a passar inclusive por cenas cômicas quando capangas da máfia ao estuprarem Dagmar se questionam se podem ser chamados de gays.

Chega a ser entranho para o nosso olhar atual (ou não) como satanismo, vampirismo, vida promíscua das celebridades e poderosos são coisas mais passíveis de aceitação, sem grandes choques gráficos, do que uma bela mulher com um tremendo pênis duro. Não obstante, o sexo oral ocorre de diferentes formas com diferentes pessoas, inclusive Dagmar que diz adorar ver o rosto do sujeito quando ele ejacula na sua boca. Outras reflexões sobre o pênis surgem quando Cass, enquanto judeu, é reconhecido justamente por ser circuncidado - além do temor e desejo da sobrinha (e parceira sexual) de Cass ter a respeito do pênis dos negros.

Não só temas a respeito do pênis e sexo oral são constantes, como também formas fálicas. Ora, a cruz do anticristianismo, igual a cristã, só que que invertida, não deixa de ser um pênis, antes caído, agora ereto. Essa mesma ordem anticristã que tem por base O Livro das Oferendas da Ordem de São Bonifácio remete a um santo que ficou famoso por ter derrubado um carvalho (ou seja, um pau de pé) que servia de veneração ao deus Thor. Com essa madeira Bonifácio fez uma igreja cristã. Esses detalhes não são apresentados na trama, mas perceptíveis com alguma contextualização.

Ainda assim, é Dagmar, a mulher com pênis, a fonte principal de choque desta HQ que chegou a ser proibida em alguns países. Nada mais natural do que numa mesma estória ter uma Mulher com pênis e a tradição cristã. Quer coisa mais impotente do que a mulher no cristianismo, na herança patriarcal do judaísmo? Tantas obras falam disso hoje em dia, mas poucas expressam o horror gráfico de Chaykin. Uma mulher com um pênis ereto é a vingança pictórica de uma impotência histórica, uma espada em chamas louca pra se lambuzar de sangue. Diriam muitos, cruz credo!
___________________________________

Black Kiss saiu originalmente no Brasil em 1991 sendo republicado pela editora Devir em 2011, numa edição formato grande, excelente acabamento, capa-dura e/ou capa cartonada.  É possível encontrar a HQ em promoção em lojas especializadas. O preço não é tão duro, vai de levinho.


26/05/2012

Batman vai ao Cinema parte 2 – o lúdico da estranheza

0 comentários
Batman, o Retorno, estreou em 1992. Segundo filme do homem-morcego de Tim Burton, desta vez, bem mais à vontade no crédito “A Film By”. Algumas coisas que já estavam presentes no filme anterior, neste se intensificaram: Batman (Michael Keaton) ainda mais de escanteio, maior desenvolvimento psicológico dos vilões e referências ao expressionismo alemão cinematográfico. 

Outros elementos, no entanto, surgiram e foram provavelmente os principais motivos de controvérsia na época, como o forte apelo sexual, a crítica política e uma narrativa que não primava pela ação. Isso sem falar nas muitas liberdades criativas que Burton e equipe tomaram na adaptação. Certa vez li de alguém que não gostava do filme o seguinte comentário: “o problema do filme é que ele é o Batman do Burton”. Isso é um problema? Mas antes, retornemos num passo a passo – de pinguins.

19/05/2012

Batman vai ao Cinema parte 1 - a batmania da penitência

0 comentários
Existem paixões que não podemos negar. Uma delas é o Batman. Seria hipócrita eu dissimular isso ou tentar aqui parecer alguém imparcial. Bem dizendo, aprendi a ler com os gibis do Batman, quando criança assistia o seriado dos anos 1960 e dediquei minha dissertação de mestrado ao cruzado de capa, em 2007. Os filmes tiveram uma importância fundamental no meu apreço pelo cinema e escolha profissional. Na iminência de mais um filme do personagem, faço aqui uma retomada cinematográfica do homem-morcego. Sem querer ser imparcial, sem abrir mão do afeto de uma criança (ou adolescente, ou adulto) no cinema, mas também procurando um discernimento crítico, sem cair no moralismo idealista do “perfeito” ou “podia ser melhor”. Um considerável desafio!

Comecemos com Batman de Tim Burton, de 1989. Eu tinha 5 anos. Lembro pouco da sessão em si, legendada e que vi pela metade já que chegamos atrasados. Lembro mais das longas filas e dos muitos comentários na tv. Foi a época da batmania, como costuma-se dizer. Fui só ter maior consciência do filme já em 1992 quando ele passou no especial de fim de ano da Globo e eu, quando ainda era um jovem cristão, rezei pra que não faltasse luz no dia. Depois veio o vídeo cassete e revi esse filme tantas vezes que é impossível quantificar.

11/05/2012

O Complô educativo

0 comentários
Devo admitir que minto nessa caixa ao lado que defende o QnS como um espaço que não hierarquiza, que busca olhar para todas as formas de quadrinhos. Existe um gênero de HQs que não suporto: quadrinhos educativos. Ainda assim compensa espiar os que se destacam por um motivo ou outro.  É o caso de “O Complô: a história secreta dos Protocolos dos sábios de Sião” de Will Eisner, seu último trabalho em 2005.

A estória conta a fabricação dos Protocolos dos sábios de Sião, livro publicado originalmente em russo em 1903 relatando um suposto congresso a portas fechadas entre judeus e maçons do mundo que tecem seus planos para a dominação mundial. Desde 1921 por uma série de artigos do The Times de Londres sabe-se que o tal protocolo é um embuste, tendo como base principalmente uma sátira política de Maurice Joly de 1864, "O diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu". 

05/05/2012

O heroísmo lírico de Che

0 comentários
Faz algum tempo que queria comentar quadrinhos argentinos aqui. Só não fiz antes por dois motivos: primeiro, admito, meu parco conhecimento e segundo, ainda mais grave, a inacessibilidade. Pouquíssimo é lançado no Brasil. Tudo bem que podemos dar um eventual pulo em Buenos Aires ou ainda baixar na internet versões escaneadas – mas ainda assim dificulta o que não precisava ser difícil.

Uma maravilhosa exceção é “Che – os últimos dias de um herói” do roteirista Héctor Oesterheld e do desenhista Aberto Breccia e seu filho, Enrique Breccia. A dupla Oesterheld e Breccia já muito foi inflamada como os maiores, respectivamente, roteirista e desenhista de todos os tempos das histórias em quadrinhos da América Latina. Se tais máximas são sempre duvidosas, ao menos, nesse caso, podemos garantir que elas tem algum motivo de existir: Che consegue ser uma estória tocante a despeito de qualquer orientação política ou defasagem temporal.

29/04/2012

Episódio Vingadores

0 comentários
Pessoal, segue o texto da Thaís Campos (responsável pelo design e revisão do QnS) sobre o filme dos Vingadores de Joss Whedon. Boa leitura! Linck.

Olá, leitores, estou aqui a convite do Linck para falar um pouco sobre a retratação de universos típicos dos quadrinhos em outras mídias, neste caso o cinema. Acabei topando porque em nossas conversas sobre filmes geralmente ele me parece louco e megalomaníaco demais em relação ao modus operandi das histórias e, definitivamente, pareceu-me prudente depois que ele falou: “quando leio quadrinhos há uma certa ingenuidade que torna a leitura divertida, com cinema, eu já estudei tanta coisa que ninguém mais entende o que falo, preciso de alguém que fale português”  - pausa desconfortável para um sorriso amarelo - Pois é, não foram exatamente estas as palavras, mas licenças poéticas a parte, não tive muito como dizer não...

Pois bem, vamos falar da nerdeada estreia da semana: Os Vingadores. Um filme sobre o qual não li qualquer resenha ou comentários em outros sites e não sei o que estão falando dele por aí, aqui estarão minha opiniões baseadas apenas naquilo que conheço dos personagens.

26/04/2012

Guerra Civil - Vingadores, Valores e Máquinas- parte 2

0 comentários
Avante, leitores! Conforme eu havia colocado, existe um conflito entre valor constitucional e maquinário de objetivos na cultura norte-americana. Vamos direto ao ponto então: a desobediência do Capitão América em Guerra Civil. Se o Homem de Ferro representa o maquinário, Steve Rogers personifica os valores, os ideais que os EUA tanto sentem a necessidade de afirmar para si e para os outros – e que encontra obstáculos.

Qual Estado democrático vai impedir o anonimato, concentrar poder por meio de armas, fazer campos de concentração e recrutar criminosos? Ao contrário do aristocrata Stark, Steve Rogers vem da classe operária, cresceu no mundo onde os EUA eram o “bom amigo”, a nação que tendo conquistado a democracia para si quis compartilhar com os outros, não de forma impositiva, mas propositiva, tal qual um amigo preocupado com o nosso bem-estar.

24/04/2012

Guerra Civil - Vingadores, Valores e Máquinas- parte 1

0 comentários
Com a iminente estreia do filme dos Vingadores e todo o rebuliço que isso tem causado na mídia, achei que seria bacana pensar um pouco mais os personagens para além de alguns correlatos mais óbvios. Digo isso porque se eu quisesse comentar algum gibi que parece servir de base para grande parte do filme seria Os Supremos, de Mark Millar e Bryan Hitch. Mas justamente por ser próximo demais, escolhi outra estória, também de Millar com os desenhos de Steve McNiven. Falo de Guerra Civil, minissérie em sete partes, de grande repercussão, publicada em 2006/07.

17/04/2012

Piratas do Tietê, Cultos e Bárbaros

0 comentários
"Não há documento de cultura que não seja, ao mesmo tempo, documento de barbárie". É com essa célebre frase do pensador Walter Benjamin que inevitavelmente penso os Piratas do Tietê de Laerte Coutinho. Quanto horror, quanto escárnio, quanta foda! Violência, sexo e deboche são a tônica do intrépido grupo de piratas que cruzam o rio Tietê na cidade de São Paulo para o pavor do paulistano – para a comoção de todo o povo brasileiro!!! Sim, o meu sensacionalismo é proposital. Os Piratas do Tietê com sua tipografia escorrendo sangue fazem parte da história do Brasil como os infames programas de tv que escorrem sangue por sua tela. 

13/04/2012

Spawn Trabalhista

0 comentários
Sob pressões advindas do inferno encarnado em vaidade e soberba, resolvi reler as 11 primeiras estórias de Spawn para uma postagem temática nesta sexta-feira 13. Reencontrar o Soldado do Inferno sob a distância exata de 20 anos desde sua publicação original, em 1992, fez aparecer coisas que talvez fossem mais esfumaçadas em seu tempo. Tanto nas primeiras estórias de Todd McFarlane, quanto nos roteiros especiais de Alan Moore, Frank Miller, Neil Gaiman e Dave Sim, percebi um coro cantando em uníssono: o demônio que agencia Spawn e dá forma ao inferno se chama “mundo do trabalho”. Como assim diabos?

Isso tem a ver a com a história e a estória de Spawn. Criado em meio ao levante de vários desenhistas da Marvel comics que nos anos 1990, descontentes com as velhas práticas das velhas editoras, principalmente no que se referia aos direitos de autor e participação nos lucros, partiram para produções independentes em uma nova editora: a Image comics.

Voltar ao Topo da Página