Existe uma receita fácil para criar polêmica, ou ao menos, um contraste problemático. É simples, basta apresentar o corpo ao cristianismo. Não o corpo santificado, puro ou amaldiçoado por chagas, impuro. Mas sim o corpo sexualizado, gozado mesmo, o corpo que tem uma leve ereção ou lubrificação ao ver uma imagem de Cristo ensanguentada. São comuns filmes que problematizam o celibato católico, com padres pedófilos e freiras homossexuais. Nada mais sexy do que duas freiras transando, alguém diria sob o olhar horrorizado de muitos outros... Viram então como é fácil polemizar?
Howard Chaykin devia saber disso quando lançou a hq Black Kiss em 1988/1989. É visivelmente gratuita as provocações religiosas e sexuais. Ainda assim, na própria gratuidade se escondem símbolos bastante ricos. Destaco aqui o pênis, do judeu circuncidado e do travesti que oculta, juntamente com a pulsão pelo sexo oral, pelo boquete, pela “gulosa” e pelos “litros de porra” que as protagonistas anseiam verbalmente e adoram receber. Black Kiss basicamente é: vamos falar de pênis, do que podemos fazer com ele e de como ele se encaixa, penetra, no cristianismo católico.
A trama é consistente nas suas muitas viradas típicas de um filme policial, noir, naturalmente passado em Los Angeles a base de muito Jazz – muito parecido com aqueles filmes B mais ou menos pornográficos, que entre uma cena de ação e outra surge alguém transando como forma de apresentação (algo também típico em filmes de ação, onde os heróis se conhecem na base da porrada).
Basicamente o que move a trama são as duas mulheres e amantes, Dagmar Laine e Beverly Grove. Ambas estão tentando destruir um filme do acervo pornográfico do Vaticano. Dagmar é idêntica a Beverly, uma ex-atriz de sucesso dos anos 1950, embora nos dias de hoje (final dos anos 1980) ainda esteja extremamente jovem. Nosso personagem de penetração (na trama e outras coisas) é Cass Pollack, judeu, músico, ex-viciado em heroína, que tem sua esposa e filha assassinadas pela máfia e é incriminado pela polícia corrupta.
Cass acaba se envolvendo (para seu azar) com Dagmar e Beverly. Muitas fugas, transas e revelações surgem até sabermos que o tal filme que deveria ser destruído prova que Beverly, jovem desde os anos 1920, participou de uma orgia satânica com a alta elite hollywoodiana. Esses seguidores satanistas da elite ainda existem e querem que Beverly conceda a eles a vida eterna na morte eterna. Nunca é mencionada a palavra vampiro, mas rituais de sangue, alho e estacas dão a tônica com facilidade.
No entanto, grande parte do que move as surpresas e as cenas mais agressivas sexualmente da estória é o fato de Dagmar ser uma mulher escultural, linda e perfeita, idêntica a Beverly, mas com uma diferença crucial: Dagmar tem um enorme e viril pênis. Antes um homem, Dagmar hoje é uma mulher com bônus. Esse estranhamento (repito, lembrem que estamos no final dos anos 1980) chega a passar inclusive por cenas cômicas quando capangas da máfia ao estuprarem Dagmar se questionam se podem ser chamados de gays.
Chega a ser entranho para o nosso olhar atual (ou não) como satanismo, vampirismo, vida promíscua das celebridades e poderosos são coisas mais passíveis de aceitação, sem grandes choques gráficos, do que uma bela mulher com um tremendo pênis duro. Não obstante, o sexo oral ocorre de diferentes formas com diferentes pessoas, inclusive Dagmar que diz adorar ver o rosto do sujeito quando ele ejacula na sua boca. Outras reflexões sobre o pênis surgem quando Cass, enquanto judeu, é reconhecido justamente por ser circuncidado - além do temor e desejo da sobrinha (e parceira sexual) de Cass ter a respeito do pênis dos negros.
Não só temas a respeito do pênis e sexo oral são constantes, como também formas fálicas. Ora, a cruz do anticristianismo, igual a cristã, só que que invertida, não deixa de ser um pênis, antes caído, agora ereto. Essa mesma ordem anticristã que tem por base O Livro das Oferendas da Ordem de São Bonifácio remete a um santo que ficou famoso por ter derrubado um carvalho (ou seja, um pau de pé) que servia de veneração ao deus Thor. Com essa madeira Bonifácio fez uma igreja cristã. Esses detalhes não são apresentados na trama, mas perceptíveis com alguma contextualização.
Não só temas a respeito do pênis e sexo oral são constantes, como também formas fálicas. Ora, a cruz do anticristianismo, igual a cristã, só que que invertida, não deixa de ser um pênis, antes caído, agora ereto. Essa mesma ordem anticristã que tem por base O Livro das Oferendas da Ordem de São Bonifácio remete a um santo que ficou famoso por ter derrubado um carvalho (ou seja, um pau de pé) que servia de veneração ao deus Thor. Com essa madeira Bonifácio fez uma igreja cristã. Esses detalhes não são apresentados na trama, mas perceptíveis com alguma contextualização.
Ainda assim, é Dagmar, a mulher com pênis, a fonte principal de choque desta HQ que chegou a ser proibida em alguns países. Nada mais natural do que numa mesma estória ter uma Mulher com pênis e a tradição cristã. Quer coisa mais impotente do que a mulher no cristianismo, na herança patriarcal do judaísmo? Tantas obras falam disso hoje em dia, mas poucas expressam o horror gráfico de Chaykin. Uma mulher com um pênis ereto é a vingança pictórica de uma impotência histórica, uma espada em chamas louca pra se lambuzar de sangue. Diriam muitos, cruz credo!
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